Os Pais, Sócios de Deus
Por Evandro Faustino - Glosa a “O homem como filho”, de Leonardo Polo
O filho se define essencialmente como um ser que nasce de alguém. Nesse sentido, o homem é filho. Mas a condição filial do ser humano não se esgota apenas nisso, pois nascer também é próprio dos animais. Quando se trata da filiação humana, é preciso antes de qualquer coisa prestar atenção ao caráter prematuro de seu nascimento. Qualquer animal nasce em condições de viabilidade muito maiores que os homens: um patinho recém-nascido já está nadando por sua conta. O homem, pelo contrário, necessita de tantos cuidados até “voar por conta própria”, que se pode tranquilamente afirmar que ele continua nascendo ao longo de anos. Esse “nascimento continuado” é o que chamamos de educação. E a função de educar cabe primordialmente àqueles que geraram e “continuam gerando” o filho, isto é, aos pais.
Sucede, entretanto que os pais não geraram esse filho sozinhos. Houve na geração também a paternidade criadora de Deus. O homem não é somente filho de seus pais, ou pelo menos, não o é em todas as suas dimensões. Em todos os homens, o caráter espiritual não vem de seus pais humanos, mas de Deus. E justamente por causa disso, cada pessoa humana é uma “novidade”, no sentido mais estrito da palavra: é uma criatura única, com características inteiramente diferentes de todas as outras. É uma obra de arte assinada conjuntamente por seus pais e por Deus.
Cada homem é objeto de um amor divino de predileção. Para cada ser humano que foi gerado pelos pais e “assinado” por Deus, houve bilhões de outros seres humanos possíveis que não chegaram a ser gerados. Tendo em conta a onipotência e a onisciência de Deus, o número de homens possíveis que nunca existirão é muitíssimo maior do que os que existem, e estes existem porque aqueles deixaram de existir. Que razão pode haver para isso? Não pode ser outra que um amor divino de predileção.
Transcendentalmente, o homem é filho de Deus. Apenas Deus pode escolher seus filhos, trazendo-os à existência. A pretensão de se escolher o filho através da engenharia genética é absurda, porque não pode suplantar a predileção divina. Não é nem mesmo um arremedo de Deus, mas um mero ato de cálculo, vazio de amor criador. A verdadeira e maior grandeza dos pais humanos, que os eleva e dignifica, é reconhecer como deles o filho que Deus lhes deu. É reconhecerem-se com sócios de Deus na geração e na educação dessa pessoa única e predileta de Deus que é o seu filho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário