sexta-feira, 1 de agosto de 2014

EUCARISTIA: O MODO DE RECEBER O AUGUSTO SACRAMENTO

EUCARISTIA: O MODO DE RECEBER O AUGUSTO SACRAMENTO 


Uma vez que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia Nosso Senhor encontra-se verdadeiramente presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, não é uma grande graça poder visitá-Lo com frequência? Não é considerado uma grande honra visitar um rei? Imagine-se então quão grande é a honra poder visitar o Rei dos Reis, o Senhor do Céu e da Terra — sempre à nossa disposição nos sacrários, tanto das ricas e imponentes catedrais quanto das pobres e simples capelinhas! 

Se fôssemos convidados a visitar uma rainha — por exemplo, a Rainha da Inglaterra —, não nos prepararíamos primorosamente para tal visita e a faríamos com todo respeito?

Se assim é, com razão ainda maior devemos visitar o Santíssimo Sacramento e receber a Sagrada Comunhão com sumo respeito, numa atitude de adoração, estando em estado de graça (sem a mancha de qualquer pecado mortal). É sapiencial tradição da Igreja recebê-la de joelhos e sobre a língua; no caso das senhoras, cobertas com o véu na cabeça e convenientemente vestidas. 

Não estando em estado de graça, deve-se primeiro purificar a consciência, arrependendo-se e confessando-se antes de receber a Comunhão. Como adverte São Paulo Apóstolo: “Todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, a si mesmo o homem, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque aquele que o come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação, não distinguindo o corpo do Senhor” (I Cor. 11, 27-29).

Consonante com essas palavras do Apóstolo, o Concílio de Trento reafirmou: “Ninguém cônscio de pecado mortal, por mais contrito que se julgue, se aproxime da Sagrada Eucaristia sem ter recebido antes o Sacramento da penitência”. 


“MISTÉRIO DE FÉ” — O SUBLIME MISTÉRIO EUCARÍSTICO 


Para nós, simples mortais, a transubstanciação é um mistério, o 
“Mysterium Fidei”. Cremos porque nos é ensinado pela Fé, que nos leva a crer em Deus e em todas as coisas que Ele faz, mesmo que nos pareçam incompreensíveis. “A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê” (Hb 11,1). 

A Eucaristia é um altíssimo mistério, que excede a pobre inteligência humana, pois nossos olhos mortais não veem senão o pão e o vinho. Mas temos a certeza que é o Corpo de Cristo, pois para Deus NADA é impossível. 

De modo muito expressivo e poético, um dos hinos compostos por Santo Tomás de Aquino para adoração do Santíssimo Sacramento, o “Adoro te devote”, assim canta essa misteriosa e sublime verdade de fé:
“Eu te adoro com afeto, Deus oculto, que te escondes nestas aparências. A Ti sujeita-se o meu coração por inteiro e desfalece ao te contemplar. 
A vista, o tato e o gosto não te alcançam, mas só com o ouvir-te firmemente creio. Creio em tudo o que disse o Filho de Deus, nada mais verdadeiro do que esta Palavra da Verdade”.

“VER PARA CRER”: COMOVENTES MILAGRES EUCARÍSTICOS 


Se do nada Deus criou todo o Universo, não poderia Ele mudar a substância do pão e do vinho em seu Corpo e Sangue? — Responde o grande Santo Ambrósio: “Se acreditamos que Deus pode criar do nada todos os seres, não deveremos crer mais facilmente que possa permutar uma substância por outra? Se todos os dias, por virtude natural, e não menos incompreensível, o pão e o vinho se transformam no corpo e no sangue daqueles a quem serve de alimento, por que não haveremos de crer que, por divina virtude, os mesmos objetos se transformem no corpo e no sangue de Jesus Cristo?”.

Entretanto, em algumas ocasiões, Nosso Senhor misericordiosamente nos desvendou o mistério eucarístico, mostrando-se realmente presente na Hóstia Santa por meio de comoventes milagres. Estes confirmam a presença Real do Homem-Deus na Eucaristia, e, assim, fortalecem a fé de muitos de nós que, como São Tomé, às vezes precisamos “ver para crer”. 

Impossível elencar nas páginas disponíveis para este artigo todos os prodígios operados ao longo dos séculos, que confirmam a presença Real na Eucaristia, mas nos deteremos em um que neste ano completa 750 anos exatos. Um milagre portentoso que está na origem da expansão das festividades públicas em honra do Santíssimo Sacramento, as procissões de Corpus Christi. Antes, porém, algumas linhas explicativas sobre a origem de tal celebração.


FESTA DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE JESUS CRISTO 


As maiores manifestações públicas da fé no dogma da Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia são as festas de Corpus Christi — como as belas e já conhecidas celebradas solenemente em diversas cidades de norte a sul do Brasil, com suas ruas enfeitadas com “tapetes” de flores etc.

A origem do festa de Corpus Christi remonta a uma religiosa agostiniana, Santa Juliana de Cornillon (1193 – 1258), a quem Deus revelou a conveniência para a Igreja de uma celebração dedicada a glorificar o Santíssimo Sacramento. Esta grande devota da Eucaristia foi superiora da abadia de Mont-Cornillon de Liège (Bélgica), fundada em 1124. Neste lugar de recolhimento, surgiu um movimento eucarístico que incentivou várias práticas de adoração à Hóstia Consagrada, como a Exposição e a Bênção do Santíssimo Sacramento.

Em 1246, Santa Juliana pediu ao bispo de Liège, Dom Roberto de Thorote, a instituição da festa de ação de graças pela presença Real, em Corpo e Alma, de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia. O Bispo concordou com a celebração na diocese, mas não chegou a ver cumprida a solenidade, pois faleceu no mesmo ano. 

Somente em 1250 o Cardeal Cher, também de Liège, decidiu instituir em toda a diocese a nova festividade. Assim, a primeira celebração, com o nome de “Fête-Dieu”, foi realizada no interior da igreja de Saint-Martin, num cerimonial dirigido pelo próprio Cardeal. 


Na praça em frente à Catedral de Orvieto, os assistentes aguardam o início da Procissão de Corpus Christi

ORVIETO: A “CIDADE DO CORPUS CHRISTI”

Desenvolveremos com mais detalhes para os leitores as festividades de Corpus Christiem Orvieto (Itália). Sem dúvida uma das mais bonitas, ou mesmo a mais bela manifestação em honra do Santíssimo Sacramento. Em qualquer caso, é considerada a primeira procissão de Corpus Christi realizada publicamente. 


Sobre um plateau a 300 metros de altitude, tendo a seus pés uma planície repleta de formosos vinhedos, Orvieto, com um pouco mais de 20 mil habitantes, situa-se mais ou menos a 100 km ao norte de Roma. A“Cidade do Corpus Christi” — como é denominada — possui notáveis monumentos medievais, sendo o mais importante oDuomo — o “Lírio das Catedrais” [foto]. Sua frente foi classificada por Plinio Corrêa de Oliveira como“a mais bela fachada da Cristandade”. Dedicado à Virgem Santíssima, é uma obra-prima da arte gótica italiana, floreado por preciosos mosaicos e baixos relevos (retratando fatos do Antigo e do Novo Testamento), além de afrescos de Fra Angélico e de Luca Signorelli. Sua construção teve início em 1290 para que fosse um grandioso escrínio no qual ficasse dignamente conservado e venerado o “Milagre de Bolsena”. 
O sacrossanto Corporal, levado num andor, sob um belo pálio, na procissão de Corpus Christi em Orvieto

O IMPRESSIONANTE “MILAGRE EUCARÍSTICO DE BOLSENA” 


— Que milagre é esse? Encontrei sua narração no livro Leituras Eucarísticas (Editora Vozes, 1935), do Frei Mariano Wentzen. Eis um pequeno resumo: 

Entre os milagres realizados pela Santíssima Eucaristia, o de Bolsena (província de Viterbo, diocese de Orvieto) é o mais conhecido, pois está na origem da festa de Corpus Christi (ou Corpus Domini). Em 1264, o Padre Peter, oriundo de Praga, empreendeu uma viagem desde sua região (a Boêmia) até Roma. Embora fosse um sacerdote piedoso, ele desejava revigorar sua fé na Cidade Eterna, pedir ao Papa alguns esclarecimentos e expor-lhe dúvidas a respeito da doutrina da transubstanciação. Como vimos acima, durante a Consagração, ocorre a mudança da substância do pão e do vinho em Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo — permanecendo, contudo, na aparência do pão e do vinho. 
Diversos e preciosos gonfalões são portados no solene cortejo de Orvieto. Neste acima, a representação da "Missa de Bolsena", durante a qual se operou o impressionante milagre eucarístico.

Chegando à cidade de Bolsena, o referido sacerdote celebrou a Missa na Igreja de Santa Cristina. Foi esta a última vez que as dúvidas de fé sobre a presença Real de Jesus na Santíssima Eucaristia o atormentaram! 

No momento da Consagração do pão e do vinho, na Sagrada Hóstia ocorreu uma efusão do preciosíssimo Sangue, que começou a transbordar e gotas verteram-se sobre o corporal (tecido de linho branco que fica debaixo do Cálice), tingindo-o de sangue. 

Assustado com aquele inexplicável acontecimento, o sacerdote primeiro procurou esconder o sagrado corporal, pois julgava que isso ocorrera em castigo devido às suas dúvidas de fé. Mas o sangue transpôs o linho e quatro gotas caíram sobre os degraus do altar, deixando impressos no mármore sinais evidentes do adorável Sangue. 

Não podendo mais ocultar o milagre, foi à procura do Papa Urbano IV — que se encontrava em Orvieto, cidade bem próxima de Bolsena — para se confessar e narrar o acontecido. Assim, o Papa mandou trazer à sua presença aquele corporal e ordenou uma apuração meticulosa, que resultou na comprovação inequívoca do milagre.


ESTABELECIMENTO DA FESTA DE CORPUS CHRISTI PARA TODA IGREJA


Interior da catedral de Orvieto
Daí a edificação da Catedral de Orvieto para a guarda e veneração do sacrossanto Corporal — objeto de grande devoção não apenas dos italianos, mas de pessoas do mundo inteiro que para lá se dirigem. Quanto ao mármore sobre o qual pingaram gotas do preciosíssimo Sangue, conserva-se até hoje na Igreja de Santa Cristina de Bolsena, onde ocorrera o impressionante milagre, outra prodigiosa comprovação da presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Hóstia consagrada.

Com a bula Transiturus de hoc mundo, de 11 de agosto de 1264, Urbano IV estendeu a todo o Orbe católico a Festa de Corpus Christi, a ser celebrada publicamente de modo solene pelas ruas e praças. A data da comemoração foi fixada para a quinta-feira após o dia da Santíssima Trindade. O dia escolhido foi em memória da celebração da primeira Missa por Nosso Senhor, na última ceia no Cenáculo, que foi na Quinta-Feira Santa, quando instituiu o incomparável Sacramento da Eucaristia. 

Também o Papa Urbano IV pediu a Santo Tomás de Aquino para compor cânticos para se festejar com maior esplendor o dia de Corpus Christi. Ele então compôs cinco hinos em louvor ao Santíssimo Sacramento — o “Lauda Sion”, “Adoro Te Devote”, “Pange Lingua”, “Sacris Sollemnis” e “Verbum Supernum”. Conta-se que para a criação de um dos hinos, o Papa encomendou a São Boaventura e a Santo Tomás, mas quando o Romano Pontífice fez leitura em voz alta do ofício composto por Santo Tomás, São Boaventura, despretensiosamente, foi rasgando a sua composição... Tal hino é o célebre e belíssimo “Lauda Sion” (Louva Sião). 


O CORTEJO HISTÓRICO E SOLENE DE ORVIETO 


A partir da determinação de Urbano IV para se festejar o dia de Corpus Christi, uma soleníssima procissão se realiza todos os anos pelas encantadoras ruas de Orvieto. Antes de seu início, logo pela manhã, no interior da Catedral é realizada com grande pompa a cerimônia da exposição e adoração da Santíssima Eucaristia. Segue-se a celebração da Missa solene. Logo depois tem início a magnífica procissão, com o venerável Corporal percorrendo as ruas da cidade, cujas casas ornam suas janelas e sacadas com bandeiras, tapeçarias e maravilhosos arranjos florais. 


Atualmente, quase mil personagens em preciosos trajes medievais, representando as diversas classes sociais (desde a alta nobreza, passando pelos cavaleiros, pelos homens de justiça, pelas confrarias de estudantes e pelas corporações ofício até o povo miúdo) desfilam em homenagem ao Sagrado Corporal e ao Santíssimo Sacramento. 






O histórico e solene desfile é dividido por 
quatro bairros da cidade, cada um com suas bandeiras e cores próprias. Muitos dos hábitos medievais usados no cortejo são confeccionados em riquíssimos tecidos, alguns de seda e veludo, outros bordados em ouro e prata — como se pode observar nasfotos. Alguns trajes constituem verdadeiras obras de arte confeccionadas pela célebre “Manifattura LISIO”.


Dando um brilho ainda mais especial ao cortejo, observamos brasões e armas das famílias nobres da cidade, bem como armaduras, couraças, escudos, capacetes, feitos cuidadosamente à mão por armeiros de renome.

Imbuída de charme, sacralidade e grandeza, esta é a solene cerimônia de Corpus Christi de Orvieto, que tive a graça de assistir no dia 2 de junho de 2013, certamente a mais bela procissão do gênero que se realiza no universo em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo Sacramentado. É razoável que assim seja, uma vez que o “Milagre de Bolsena” está na origem da primeira procissão pública de Corpus Christi, que depois foi pouco a pouco se multiplicando pelo mundo inteiro.




_______

Mãe

Relembrando algo muito esquecido: a moral católica

Relembrando algo muito esquecido: a moral católica




Em entrevista publicada na Revista Catolicismo de abril/2014 (Nº 760), o Cardeal Raymond Leo Burke esclarece importantes pontos de moral católica, especialmente no que concerne à instituição familiar. Em nome do relativismo moral — que penetrou até mesmo em ambientes católicos — a família vem sendo paulatinamente desagregada.



O Emmo. Cardeal Raymond Leo Burke foi recentemente entrevistado pela pela Srta. Izabella Parowicz, da revista “Polonia Christiana”, de Cracóvia. Nascido em Richland Center (Wisconsin, EUA) em 30 de junho de 1948, ele exerce atualmente o cargo de Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica — o mais alto tribunal da Santa Sé, que corresponde ao nosso Supremo Tribunal Federal. Anteriormente, foi Bispo de La Crosse, em seu estado natal, de 1994 a 2003, e Arcebispo de Saint Louis de 2003 a 2008. O insigne purpurado é uma voz proeminente nos ambientes conservadores, especialmente em assuntos atinentes à Igreja, à família e à política americana. O Cardeal Burke e a referida revista polonesa concederam autorização a Catolicismo para a reprodução de pontos salientes dessa importante entrevista.

*       *       *
Catolicismo — Eminência, é possível ser parcialmente católico? Frequentemente ouvimos afirmações como: “Eu sou católico, mas...”. Até que ponto é permitido aos católicos fazer compromissos quando se trata de defender a vida humana, o matrimônio e a família?
Cardeal Burke — A noção de “Catolicismo parcial” é uma contradição nos termos, que reflete a presente tendência cultural ao individualismo e ao relativismo; em outras palavras, a tendência de acomodar qualquer realidade, sem respeito pela sua natureza objetiva, aos próprios pensamentos e desejos. Os católicos que têm essa noção de sua fé e prática católicas são algumas vezes chamados de católicos de “cafeteria”, porque eles selecionam e escolhem entre os ensinamentos da Igreja sobre fé e moral, aquilo que eles querem acreditar e seguir. Um verdadeiro católico aceita, sem compromissos, todas as verdades que a Igreja ensina a respeito da fé e da vida moral.

Catolicismo — Por que a inocência é minimizada hoje em dia? Refiro-me à vida dos bebês em gestação, às crianças que são violentadas psicologicamente durante as aulas de educação sexual obrigatória, e à inocência entendida como a pureza de pensamentos e (antes do casamento) pureza da carne.
Cardeal Burke — Uma agenda totalmente secular, para ter sucesso, deve atrair as crianças e os jovens para a sua maneira de pensar. A educação é a chave final para a sua vitória na sociedade. A única maneira de ela conquistar as crianças e os jovens é usurpando o dever solene dos pais e professores de educar de acordo com o que é verdadeiro, bom e belo. Pais, e professores que trabalham com os pais na educação correta de seus filhos, devem necessariamente respeitar por completo o período de inocência das crianças e dos jovens. Respeitando essa inocência natural, que é um reflexo do dom de Deus referente à consciência para todas as crianças, pais e professores vão prepará-las, como também os jovens, para responder de forma clara e corajosa a essas forças que roubariam sua inocência. Tanto dentro de si mesmos — devido aos efeitos do pecado original — quanto fora, por exemplo, devido às más companhias e más comunicações, como a pornografia na internet. Pais e professores devem estar sempre vigilantes para que nada seja introduzido no currículo que viole a inocência de uma criança, e até mesmo tentativas de incutir gravemente na criança formas erradas de pensar — como, por exemplo, um currículo aprovado por determinado governo que ensina a crianças de quatro e cinco anos que o casamento pode assumir formas diversas da união duradoura, fiel e procriativa de um homem e uma mulher.

Catolicismo — Hipócrates não era católico, mas jurou o seguinte: “Eu não vou dar uma droga mortal a ninguém se solicitado, nem darei uma sugestão para esse efeito. Do mesmo modo, não darei a uma mulher um remédio abortivo. Em pureza e santidade eu vou conservar minha vida e minha arte.” Hoje em dia, os ataques contra a vida humana estão se tornando cada vez mais fortes. Mesmo médicos nominalmente católicos, que também admitem o juramento de Hipócrates, tendem a assumir a sacralidade da vida humana de modo leve e permitir soluções que envolvem morte (ou seja, o aborto e a eutanásia), a fim de garantir a realização pessoal, o conforto, ou a eliminar algum “problema” de um indivíduo. Como podemos evitar que esse mal intrínseco e disfarçado se espalhe ainda mais?
Cardeal Burke  A situação que você descreve é ​​tragicamente real. Muitas vezes fico profundamente triste ao ver a arte médica, que por sua natureza é dirigida para a cura e a preservação da vida humana, ser reduzida a uma tecnologia de mutilação e morte. É fundamental dar às crianças, entre as quais estão os futuros médicos do mundo, uma catequese sólida, incluindo a formação essencial no que diz respeito à dignidade inviolável da vida inocente e indefesa, à integridade do matrimônio e da família, e ao livre exercício de uma consciência corretamente informada. Também é fundamental proporcionar ocasiões aos médicos e a outros profissionais de saúde de se unirem com vistas à educação continuada sobre as dimensões éticas e religiosas dos cuidados da saúde e a edificação de sua solidariedade na luta contra a cultura do secularismo e da morte. Um excelente exemplo de tal trabalho é a Associação Médica Santa Gianna (http://www.stgiannaphysicians.org), que tem desenvolvido a "Aliança Católica Juramento de Hipócrates do Médico St. Gianna"(http://www.stgiannasphysicians.org/enshrinements/hippocratic_oath).

“É fundamental dar às crianças catequese sólida, incluindo a formação essencial no que diz respeito à dignidade inviolável da vida inocente e indefesa”

Catolicismo — Nos últimos 50 anos, a anulação eclesiástica se tornou uma maneira relativamente fácil para sair de um casamento difícil ou inconveniente. Razões válidas para declarar um casamento nulo e sem efeito muitas vezes são confundidas com meras desculpas para começar uma nova vida. Houve casos em que um ou ambos os cônjuges ficticiamente mudaram seu endereço para obter uma decisão favorável de outro tribunal diocesano de ação rápida ou mais “arejado”. Ademais, enquanto um dos cônjuges tende para a anulação, o outro é contrário a ela e — se a anulação for concedida — eventualmente sofre muito, ou mesmo perde a fé. Além disso, parece haver um novo nicho de mercado para advogados especializados nestes casos de anulação. Poderia Vossa Eminência nos oferecer alguns insights sobre a maneira como as mais altas autoridades judiciais da Igreja previnem o abuso da instituição de anulação? Como devem os leigos resistir à tentação de usar a anulação como uma “saída de emergência” do casamento indissolúvel?
Cardeal Burke  O Supremo Tribunal da Signatura Apostólica tem a responsabilidade de supervisionar a administração correta da justiça na Igreja. Isso inclui a justiça administrada pelos tribunais matrimoniais, no caso da acusação de nulidade de um casamento por parte de um ou de ambos os cônjuges. Por meio do processo empregado nos tribunais matrimoniais, um processo estabelecido na lei universal da Igreja, o juiz ou juízes chegam a uma decisão sobre a veracidade da alegação de que um casamento foi nulo desde o início, mesmo que se ele pareceu ter sido um casamento válido . A lei universal da Igreja também estabelece as bases sobre as quais uma ou ambas as partes podem fazer tal afirmação. O processo é direcionado apenas para a descoberta da verdade sobre a reivindicação, pois só a verdade pode servir ao bem das partes envolvidas. A decisão do tribunal é corretamente chamada de "declaração de nulidade", não uma "anulação", de modo a não dar a impressão de que a Igreja está anulando um casamento válido. A declaração significa que o juiz ou juízes — por meio de um processo no qual tanto os argumentos a favor da validade do casamento quanto todos os argumentos a favor da nulidade do matrimônio foram cuidadosamente ponderados — concluíram com certeza moral que o casamento era nulo desde o início. Certeza moral significa que o juiz ou juízes, depois de terem ponderado todos os argumentos — considerando somente a Deus diante de seus olhos —, não tem nenhuma dúvida razoável quanto à nulidade. O processo também inclui os meios para as partes buscarem soluções eficazes, se elas acreditam que a verdade não está sendo obedecida pelo processo.
A ruptura de um casamento pode ser devida a uma causa distinta da nulidade do consentimento matrimonial a partir do início do casamento. Por exemplo, ela pode ser devida ao pecado de uma ou de ambas as partes. Uma parte só deve fazer a alegação de nulidade do casamento quando estiver convencida de que seu casamento, que ela pensava anteriormente que era válido, na verdade era inválido.
Além de receber denúncias sobre possíveis injustiças cometidas nos tribunais locais, o Supremo Tribunal da Signatura Apostólica também recebe um relatório anual sobre o estado e a atividade de cada tribunal matrimonial. Depois de estudar o relatório, envia observações ao tribunal matrimonial, para auxiliá-lo a realizar mais corretamente o seu trabalho. A Signatura Apostólica também solicita às vezes uma cópia da decisão definitiva em um caso de nulidade do casamento, a fim de verificar que a justiça e, portanto, a verdade foi obedecida no processo que conduziu à decisão. Por outro lado, a Signatura Apostólica tem competência para conceder certos favores aos tribunais para a administração mais eficaz da justiça.

Catolicismo — Gostaria de abordar a questão dos políticos nominalmente católicos, que atuam contra o ensinamento da Igreja — por exemplo, apoiando publicamente o aborto ou a legalização de casamentos "homossexuais". Vossa Eminência enfatiza frequentemente que a esses políticos não se deve administrar a Santa Comunhão, de modo a evitar o pecado de sacrilégio. Como os padres devem proceder de forma a garantir que esta proibição cumpra não só uma punição, mas também uma função corretiva?
Cardeal Burke  A exclusão de receber a Sagrada Comunhão, dos que persistem no pecado manifesto e grave depois de terem sido devidamente advertidos, não é uma questão de punição, mas uma disciplina que respeita o estado objetivo de uma pessoa na Igreja. Do mesmo modo como São Paulo, no capítulo 11 da primeira Carta aos Coríntios, admoestou os primeiros cristãos: "Para qualquer um que come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação" (v. 29), assim também a Igreja, ao longo dos séculos, admoestou aqueles envolvidos em pecado grave e manifesto a não se aproximarem para receber a Sagrada Comunhão. No caso de um político ou outra figura pública que age contra a lei moral em matéria grave e ainda se apresenta para receber a Sagrada Comunhão, o sacerdote deve repreender a pessoa em questão e, em seguida, se ele ou ela persiste em se aproximar para receber a Sagrada Comunhão, o sacerdote deve se recusar a dar o Corpo de Cristo para a pessoa. A recusa do padre de dar a Sagrada Comunhão é um ato nobre de caridade pastoral, ajudando a pessoa em questão a evitar sacrilégio e salvaguardar os outros fiéis do escândalo.

Catolicismo — A política do Presidente dos Estados Unidos em relação à civilização cristã se torna cada vez mais agressiva. Vossa Eminência nota algum sintoma de reações católicas contra essa política? Em caso afirmativo, o que são elas; em caso negativo, por quê?
Cardeal Burke  É verdade que as políticas do Presidente dos Estados Unidos da América se tornaram cada vez mais hostis à civilização cristã. Ele parece ser um homem totalmente secularizado, que promove agressivamente políticas anti-vida e anti-família. Agora ele quer restringir o exercício da liberdade de religião à liberdade de culto, ou seja, ele sustenta que se é livre para agir de acordo com sua consciência dentro dos limites de seu lugar de culto; mas que, uma vez que a pessoa deixa o lugar de culto, o governo pode obrigá-la a agir contra a sua consciência retamente formada, mesmo na mais grave das questões morais. Tais políticas teriam sido inimagináveis nos Estados Unidos até 40 anos atrás. É verdade que muitos fiéis católicos, com uma liderança forte e clara de seus bispos e sacerdotes, estão reagindo contra a crescente perseguição religiosa nos EUA. Infelizmente tem-se a impressão de que uma grande parte da população não tem plena consciência do que está ocorrendo. Em uma democracia, tal falta de consciência é mortal. Isso leva à perda da liberdade, a qual um governo democrático existe para proteger. A minha esperança é de que cada vez mais meus concidadãos, à medida que perceberem o que está acontecendo, insistirão em eleger líderes que respeitem a verdade da lei moral, uma vez que ela é respeitada nos princípios fundadores da nossa nação.
“As políticas do Presidente dos EUA se tornaram hostis à civilização cristã. Ele parece ser um homem secularizado, que promove políticas anti-família”

Catolicismo — Há alguma esperança de que a má tendência na legislação dos EUA relativa à proteção da vida possa ser revertida? Os ativistas pró-vida são capazes de agir eficazmente neste assunto? Por que a tática adotada pelos abortistas foi tão eficaz e como ela pode ser combatida com sucesso?

Cardeal Burke  Há esperança de que as más leis anti-vida dos Estados Unidos possam ser derrubadas, e de que o movimento que impulsiona ainda mais essa legislação possa ser resistido. O movimento pró-vida nos Estados Unidos tem trabalhado desde 1973 para reverter a decisão injusta do Supremo Tribunal Federal que derrubou as leis estaduais que proíbem o aborto provocado. É verdade que a decisão do Supremo Tribunal continua de pé, mas também é verdade que o movimento pró-vida tem crescido, tornando-se cada vez mais forte nos Estados Unidos, ou seja, cada vez mais os cidadãos, especialmente os jovens, têm sido despertados para a verdade sobre o grave mal do aborto provocado.


Há uma série de razões pelas quais a legislação anti-vida e as decisões dos tribunais têm prevalecido nos Estados Unidos até o presente. As forças da secularização têm sido e continuam poderosas, e são apoiadas pela maior parte da mídia de massa. Houve uma catequese gravemente defeituosa nos Estados Unidos durante várias décadas, a qual deixou adultos e jovens mal equipados para defender a verdade da lei moral. Houve também a tendência da Igreja de ser tímida quanto ao seu dever solene de defender a verdade no fórum público, juntamente com uma interpretação errônea da cláusula de não-estabelecimento da Constituição dos Estados Unidos. Dita cláusula proíbe uma religião oficial, ou religião de Estado, nos EUA, mas não proíbe a Igreja de testemunhar publicamente a verdade. A falsa interpretação é geralmente chamada de "separação entre Igreja e Estado" e restringiria a atividade da Igreja exclusivamente aos assuntos eclesiásticos. Estes são alguns dos fatores que têm favorecido os movimentos anti-vida e anti-família nos EUA.
“É verdade que a decisão do Supremo Tribunal continua de pé, mas também é verdade que o movimento pró-vida tem crescido cada vez mais nos EUA”

Onde está o teu tesouro?

Onde está o teu tesouro?


Pe. David Francisquini (*)

Células constitutivas da sociedade, as famílias funcionam como um termômetro dela. Quando estão sadias, a sociedade se ordena. Quando não, o corpo social fica comprometido, com reflexos em todos os campos da atividade do homem, da religião à economia. 

Assim, o grau de decadência da sociedade atual pode ser avaliado em função da situação das famílias que a constituem. De tal modo elas se distanciaram da formação recebida de seus antepassados que romperam com a estabilidade perene dentro das mutações normais das coisas. Romperam com aquilo que é imutável no mundo que muda, ou seja, a tradição.

Em sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução, Plinio Corrêa de Oliveira afirma que a crise do homem contemporâneo tem sua raiz nos problemas de alma mais profundos. E ao apontar para a amplitude da Revolução, o autor mostra que ela visa destruir toda uma ordem de coisas legítima a fim de substituí-la por uma situação ilegítima. 

Ao sacramentar o matrimônio, Jesus Cristo abriu para os esposos uma via de santidade, na qual o fim natural da multiplicação da espécie humana foi elevado a um objetivo ainda mais nobre: o da geração de membros para o seu Corpo Místico. Por isso, a verdadeira composição da sociedade tem por base a união familiar indissolúvel entre o homem e a mulher. 

Mas essa indissolubilidade está profundamente abalada, como também a educação religiosa e moral dos filhos. Devido ao hedonismo de nossos dias e de leis cada vez mais socialistas, a finalidade primordial do matrimônio – a procriação e educação da prole – não é mais levada em conta, levando à fragmentação da estabilidade e do equilíbrio da instituição familiar.

Hoje os filhos não mais aprendem com seus pais a se dirigirem a Deus, pois muitas vezes sequer são batizados. Como uma sociedade que não reza poderá alcançar as graças de Deus? Enquanto as igrejas estão vazias, os estádios, os shoppings centers, os bancos, as repartições públicas regurgitam de gente: “onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”.

A ausência dos pais, especialmente da mãe, no ambiente doméstico, tem contribuído para corromper a sua autoridade junto aos filhos. As crianças são afastadas do aconchego materno e da vida de família e colocadas em creches, onde não raro seguem uma cartilha socialista, aprendendo vícios, passando a ter sede precoce de liberdade e independência.

Em vez de cultivar as mais sólidas virtudes e princípios que regerão suas vidas, as crianças são educadas para a intemperança, o desequilíbrio e o desajuste. Na realidade, apenas nos braços de uma mãe extremosa aprendem elas amar a Deus e ao próximo, a regrar os seus instintos. Quando os pais as entregarem à sociedade, elas saberão se comportar no convívio social. 

Quando se elimina Deus do centro da vida humana, tudo perde a razão de ser. Se a sociedade se encontra hoje pervertida e erodida, é porque o conjunto das famílias abandonou a moral, a religião, até mesmo a lei natural. Quando isso acontece, ela cai nas mãos de políticos aventureiros, demagogos e inescrupulosos, oriundos eles mesmos de famílias e de colégios que os corromperam e doutrinaram. 
___________________ 

Chegou o tempo?

Chegou o tempo?

Pe. David Francisquini (*)


A mídia tem sido pródiga em divulgar declarações do ex-presidente do Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o cardeal Walter Kasper, de 81 anos. Ele acaba de apresentar mais uma proposta escandalosa: a admissão na comunhão eucarística de divorciados que tenham contraído novas uniões.

O que a doutrina católica ensina a respeito? São Paulo deixa claro: a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, repreender, corrigir e formar na justiça. E a Igreja ensina que o casamento é indissolúvel nas dores e nas alegrias, no luto e nas dificuldades, nas vitórias e nas derrotas, nos reveses e nas bonanças, nas desilusões e nas esperanças. 

Aos efésios confirma São Paulo o Gênesis: o que Deus uniu o homem não separe. O homem deixará seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher e serão dois em uma só carne. Ficam excluídos da Eucaristia aqueles que estão em aberta violação da Lei de Deus. A Igreja não pode abrir as portas deste Sacramento aos cônjuges que violem ensinamentos multisseculares, pois eles próprios é que resolveram viver em situação irregular, abandonando com isso a frequência dos sacramentos.

Já aos Coríntios, ao ensinar as condições para a Comunhão Eucarística, São Paulo aponta o dever de se encontrar em estado de graça, pois quem o fizer indignamente come e bebe a própria condenação. A Igreja especifica as condições para o acesso à Eucaristia, a fim de que os fiéis a recebam com frutos. Nenhuma autoridade humana pode abrir seu acesso àqueles que vivem de maneira irregular, pois aproximar-se deste Sacramento em pecado mortal constitui sacrilégio, profanação do Corpo de Cristo. 

Ninguém pode ensinar algo diferente do que foi sempre ensinado, afirma a tradição. São Paulo adverte: “Ainda que alguém — nós ou um anjo baixado do céu — vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema.” O que dizer de um eclesiástico que ensina e propõe o contrário daquilo que o Magistério sempre ensinou? Santo Afonso de Ligório afirma, com base nas Sacras Letras, que é de fé que os impudicos, os impuros e os fornicadores não possuirão o Reino dos Céus.

A iniciativa do cardeal Kasper de tentar liberar a Comunhão Eucarística aos recasados acabará por envolver a instituição familiar numa crise sem precedentes, pois diz respeito aos fundamentos de nossa religião. Essa crise será também a ruína de muitos que deveriam pregar a boa doutrina. A vida matrimonial e familiar é sustentada pelos princípios, convicções e certezas oriundos da Fé, e tudo o que se constrói sobre o sentimentalismo não passa de edificação fantasiosa.

Cumpre encontrar soluções para que os recasados se afastem do mau caminho, e não subterfúgios para abalar ainda mais os já tênues laços familiares, como propõe o cardeal Kasper. São Paulo recomenda: “Prega a palavra, insiste, quer agrade, quer desagrade; repreende, suplica, admoesta com toda paciência e doutrina. Porque virá tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas contratarão para si mestres conforme os seus desejos, levados pela curiosidade de ouvir. E afastarão o ouvido das verdades para abrirem às fábulas.” 

Terá chegado esse tempo? — Para o referido cardeal, expoente do progressismo, parece que sim... 
_______________________

A esdrúxula “Lei da Palmada”

9 DE JUNHO DE 2014


A esdrúxula “Lei da Palmada”

Palmada pedagógica, aplicada pela mão amorosa dos pais, NÃO PODE. Espancar a família, pela mão odiosa do Estado ditatorial, PODE. 

Paulo Roberto Campos 

No dia 4 último foi aprovado pelo Senado Federal o PL 7672/10 — conhecido como “Lei da Palmada” e rebatizado como “Lei Menino Bernardo”. Verdadeiro absurdo, que constitui mais um golpe contra a Família. 

Se a presidente Dilma Rousseff não vetar essa esdrúxula lei (ela tem 15 dias úteis para decidir), os pais poderão ser punidos por castigar seus filhos, ainda que levemente. Comenta a “Agência Brasil” (04/06/2014): “Apesar de os senadores favoráveis à matéria garantirem que não se trata de legislação criminal, o texto prevê punições aos pais que insistirem em castigar fisicamente os filhos,como advertência, encaminhamento para tratamento psicológico e cursos de orientação, entre outras sanções.Os conselhos tutelares serão responsáveis por receber denúncias e aplicar as sanções”. 





Assim, os pais poderão ser punidos, por exemplo, pelo simples 
fato de um filho os denunciar por lhe terem dado um beliscãozinho, um puxão de orelha, uma palmadinha pedagógica. Ou por os denunciarem vizinhos que, por qualquer motivo, desejam caluniá-los e fazer-lhes acusações falsas, apresentando um tapinha na criança birrenta como se tivesse sido uma agressão. 

Claro que se os pais, ou seja lá quem for, espancarem uma criança, devem ser punidos. Mas para isto não é preciso esta absurda “Lei da Palmada”, pois agressão violenta contra qualquer pessoa constitui crime punível pelo Código Penal, que já se incumbe de “enquadrar” o infrator — conforme o caso até com pena de prisão, com a agravante se praticado contra menores de 14 anos. 

A “Lei da Palmada” foi rebatizada de “Lei Menino Bernardo”, em memória do pequeno Bernardo Boldrini assassinado pelo pai e pela madrasta no Rio Grande do Sul. Um outro absurdo, pois esses pais (melhor diríamos monstros) não deram palmadas no menino, mas mataram-no. Casos do gênero são excepcionais, uma vez que 99,9% dos pais não castigam de modo cruel seus filhos. Como sabemos, “abusus non tollit usum” (o abuso não impede o uso). Ou seja, não é porque há casos extremos de violência contra crianças que todos os pais devem ser proibidos de impor limites e mesmo leves castigos aos filhos. Pelo contrário, como nos ensina a Sagrada Escritura, os pais que amam verdadeiramente seus filhos, não deixam de puni-los. “Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Provérbios, 3, 11-12). 

Mas com a aprovação desta insensata lei, através dos famigerados “Conselhos Tutelares”, o Estado ditatorial poderá agora punir o bom pai, a boa mãe, que por amor ao filho e para bem o educar dá-lhe uma leve palmada... “Conselhos Tutelares” que passarão a fiscalizar as famílias bem no estilo dos chamados “Conselhos Populares” — como os soviets, oriundos da antiga URSS — estabelecidos por Fidel Castro em Cuba e por Hugo Chávez na Venezuela. 

Típico de regimes totalitários, essa indevida intromissão do Estado no interior dos lares — além de espezinhar o pátrio poder e instalar um sistema de denúncias que poderá jogar os filhos contra os pais —, é no fundo para debilitar o princípio de autoridade, pois a educação dos filhos é da responsabilidade dos pais, e não ao Estado. São eles quem sabem o que convém ou não para melhor formar seus pequenos. O Estado socialista não pode meter o bedelho na Família, usurpando dos pais o sagrado direito de educar sua prole. 

Bebês abortados,
jogados no saco de lixo de um hospital
Muito incoerente o Estado totalitário petista, ao mesmo tempo que deseja aparecer como protetor da criança, favorece algo INCOMPARAVELMENTE mais grave e mesmo cruel: o aborto! Para este Estado, o bebê no ventre materno não merece proteção, não conta com qualquer “direito humano”; o nascituro pode até ser cortado em pedaços e jogado na lata de lixo hospitalar! [foto

Entre inúmeros depoimentos de pais contrários à aberrante “Lei da Palmada”, encerro com um deles, publicado na “Agência Brasil” (06/06/2014):
“O administrador de empresas Carlos Damasceno, 40 anos, é pai de três meninas e confessa: ‘Uma das minhas filhas é bem danada e já levou muita palmada’. Perguntado se concorda com o projeto de lei que pune famílias que usem violência física na educação dos filhos, aprovado na última quarta-feira (dia 4) pelo Senado, ele garantiu ser contra agressões pesadas, mas avaliou que conversar com as filhas nem sempre é suficiente. 
“‘A gente quer educar e sabe dos nossos limites. Tem que haver limite. Afinal, não vai ser nem a polícia nem o Estado que vão educar nossos filhos’, disse, apoiado pela amiga Flávia Passos, 37 anos, enfermeira e mãe de um rapaz de 21 anos. Para ela, agressão física que deixa hematomas e fraturas devem ser punidas, mas palmadas ocasionais não fazem mal à criança. 
“‘Minha avó apanhou, minha mãe apanhou, eu e minhas irmãs apanhamos e somos, hoje, todas muito bem resolvidas. Pai e mãe querem sempre o melhor para o filho, mas há momentos em que o castigo não resolve e a palmada, sim’”. 
É esse bom senso — da imensa maioria dos brasileiros e próprio aos pais de família — que não foi respeitado. Com efeito, noticia o próprio portal “Câmara dos Deputados”, em 22/08/2013:
“Desde 1º de julho [portanto, em menos de dois meses], 661 cidadãos entraram em contato com a Central de Comunicação Interativa da Câmara pelo Disque-Câmara (0800-619.619) ou por e-mail, utilizando o serviço ‘Fale Conosco’ do Portal, para se posicionar sobre o projeto (PL 7672/2010). Desse total, 616 (93%) são contrários à aprovação da proposta, enquanto 45 (7%) disseram ser favoráveis”
Embora mera amostragem, essa informação confirma outras pesquisas e serve para avaliar a pseudodemocracia esquerdista que aprovou a “Lei da Palmada” — com o apoio de apenas 7% da população e desprezando os 93% de brasileiros contrários.

“Renascimento” do quê?

“Renascimento” do quê?

Pe. David Francisquini 
Fonte: Agência Boa Imprensa

Assim como o raio de sol entra por uma fresta da janela para formar um pequeno cenário de luzes e de sombras, assim também a mãe católica deve criar em torno de si, pelo seu modo de ser, um ambiente propício à formação do subconsciente dos filhos, fazendo com que as primeiras noções de moralidade e de bom comportamento deitem nele suas raízes.

À medida que consegue fazer desabrochar nos filhos o encanto por tudo aquilo que é belo, nobre e elevado, a mãe desperta neles o horror ao feio, ao imoral, à cacofonia, e desta antítese nascerá a ideia de moralidade. Esta noção fundamental fará aflorar em seus corações a necessidade da luta como um imperativo contra tudo o que lhes for contrário. Trabalho de ourivesaria que só pode ser levado a cabo dentro da família e do lar.

A criança assim formada passará a amar o que é verdadeiro e sério, a ter uma ideia exata de Deus, pois seus pais compreendem a necessidade do vínculo conjugal indissolúvel como condição normal e ideal para a formação e educação da prole. E com a concorrência mais próxima da mãe, devem saber despertar nos filhos o senso do ser, de responsabilidade e do dever. 

É no sadio ambiente familiar que se destila o espírito que deve dar sentido à vida. As cerimônias de nascimento, por exemplo, feitas com o carinho e o desvelo da mãe, incutem nos filhos a ideia de um lar cristão. Ou ainda, o reencontro diário do pai e da mãe diante de uma imagem de Jesus Crucificado ou de Maria Santíssima, na recitação do terço em família, vinca neles a ideia de Deus e da eternidade. 

As mães, pelo simples fato de cuidarem da higiene dos filhos, vão deixando claro para eles que nem tudo pode ser feito diante dos outros, como o banho, a troca de roupa, etc. Isso os remete para a noção do bem e do mal, do belo e do feio, da verdade e do erro, em suma, a noção de pecado, que é a desobediência às leis impressas naturalmente por Deus em seus pequenos corações. 

Aos domingos, a mãe conduz os filhos à Missa, onde eles devem comportar-se bem. Vêm as aulas de catecismo, já iniciado no recinto do lar. As celebrações religiosas passam a ser assíduas. Não será a babá eletrônica quem cuidará dos filhos, mas a mãe, que lhes contará belas histórias que elas mesmas, quando crianças, ouviram de seus pais. Sua entonação de voz e sua fisionomia tocam fundo no coração dos filhos, carnes de sua carne. 

Nas horas difíceis, as histórias poderão versar sobre o heroísmo e a confiança, que devem pautar seu modo de ser, de pensar e de agir. O esmero e a solicitude maternos chegam até às roupas: o corte, as dobras, a composição de suas cores, e até mesmo seu comprimento parecem incutir nas crianças a ideia de príncipes e princesas, pois Deus as criou para reinarem sobre as paixões desordenadas, e não para se deixarem subjugar por elas. 

Tal mãe, tal filho. A temperança na conduta diária se forma na família cristã. A atitude dos pais diante dos filhos será a que estes adotarão diante dos outros. Como o sol lança os primeiros raios para inaugurar um novo dia, assim também os primeiros dias da criança marcarão o que ela será pelo resto da vida. 

Desde o Renascimento o mundo vem se descristianizando... Renascimento do quê? — Do paganismo! De lá para cá, o povo outrora cristão foi abandonando a fé católica. Chegamos ao ponto de as crianças de hoje sequer aprenderem as orações mais elementares e trilharem depois caminhos opostos à razão: prazeres infrenes, drogas e prostituição. Querem viver sem lei, e os frutos todos conhecem: a droga, a violência, o crime... 

A miséria e a pobreza são hoje sobretudo de ordem espiritual e moral. Cumpre reorganizar a sociedade — a começar pela família — a partir da ideia de Deus e da eternidade. A noção de bem e de mal, consignada nos Mandamentos, é essencial para a sociedade. Não basta ter a noção, é preciso criar condições para que a virtude do recato e do pudor vicejem.

As autoridades abdicaram de seus deveres. Aplicam-se leis atentatórias à moral cristã. Alastra-se a desordem social. A família está dilacerada. Hoje tudo se reivindica: cobram-se dos políticos bens materiais como saúde, emprego, transportes, lazer, mas nunca se ouve uma voz autorizada ensinar que a moralidade é o fundamento da ordem social ou que o Decálogo deve ser cumprido. Quem semeia ventos!...