segunda-feira, 4 de novembro de 2013

TEOLOGIA DO CORPO

Quarta-feira, 19 de Dezembro de 1979
Plenitude personalista da inocência original
1. Que vem a ser a vergonha e como explicar a falta dela no estado de inocência original, na profundidade
mesma do mistério da criação do homem como varão e mulher? Das análises que agora se fazem da
vergonha — e em especial do pudor sexual — deduz-se a complexidade desta experiência fundamental, em
que o homem se exprime como pessoa, segundo a estrutura que lhe é própria. Na experiência do pudor, o
ser humano tem a sensação de temor diante do «segundo eu» (assim, por exemplo, a mulher diante do
homem), sendo isto substancialmente temor quanto ao próprio «eu». Com o pudor, manifesta o ser humano
quase «instintivamente» a necessidade da afirmação e da aceitação deste «eu», segundo o seu justo valor.
Experimenta-o ao mesmo tempo não só dentro de si mesmo mas também externamente, diante do «outro».
Pode-se dizer portanto que o pudor é experiência complexa, também no sentido de que, quase afastando
um ser humano do outro (a mulher do homem), ele procura ao mesmo tempo a aproximação pessoal de
ambos, criando para ela base e nível convenientes.
Pela mesma razão, tem ele significado fundamental quanto à formação do ethos na convivência humana, e
em particular na relação homem-mulher. A análise do pudor mostra com clareza a profundidade com que ele
está radicado precisamente nas relações mútuas, quão exatamente exprime as regras essenciais à
«comunhão das pessoas», e ao mesmo tempo quão profundamente toca as dimensões da «solidão»
original do homem. Aparecer a «vergonha» na narração bíblica seguinte, no capítulo 3 do Gênesis, tem
significado pluridimensional, e a seu tempo convir-nos-á retomar-lhe a análise.
Que significa, por outro lado, a original falta da mesma em Gênesis 2, 25: Estavam ambos nus ..., mas não
sentiam vergonha?
2. É necessário começar por estabelecermos que se trata de verdadeira não-presença da vergonha, e não
duma carência ou subdesenvolvimento dela. Não podemos aqui defender dalgum modo uma
«primitivização» do seu significado. Portanto o texto de Gênesis 2, 25 não só exclui decididamente a
possibilidade de pensar numa «falta de vergonha», ou seja na impudicícia, mas ainda mais exclui que ela se
explique mediante a analogia com algumas experiências humanas positivas, como por exemplo, as da idade
infantil ou da vida das chamadas populações primitivas. Tais analogias são não só insuficientes, mas podem
mesmo desiludir. As palavras de Gênesis 2, 25, «não sentiam vergonha», não exprimem carência, mas, pelo
contrário, servem para indicar especial plenitude de consciência e de experiência, sobretudo a plenitude de 
compreensão do significado do corpo, ligada ao fato de «estarem nus».
Que assim se deve compreender e interpretar o texto citado, testemunha-o a continuação da narrativa 
javista na qual o aparecer da vergonha e, em particular, do pudor sexual, está relacionado com a perda 
daquela plenitude original. Pressupondo, pois, a experiência do pudor como experiência «de confim», 
devemos perguntar-nos a que plenitude de consciência e de experiência, e em particular a que plenitude de 
compreensão do significado do corpo corresponde o significado da nudez original, de que fala Gênesis 2, 
25.
3. Para responder a esta pergunta, é necessário ter presente o processo analítico até agora seguido, que se 
baseia no conjunto da passagem javista. Em tal contexto, a solidão original do homem manifesta-se como 
«não-identificação» da própria humanidade com o mundo dos seres vivos (animalia) que o circundam.
Essa «não-identificação», em seguida à criação do homem como varão e mulher, cede o lugar à feliz 
descoberta da própria humanidade «com o auxílio» do outro ser humano; assim reconhece e reencontra o 
homem a própria humanidade «com o auxílio» da mulher (Gén. 2, 25). Este ato de ambos realiza ao mesmo 
tempo uma percepção do mundo, que se atua diretamente através do corpo («carne da minha carne»). E tal 
ato é a fonte direta e visível da experiência que chega a estabelecer a unidade dos dois na humanidade. Por 
isso, não é difícil compreender que a nudez corresponde àquela plenitude de consciência do significado do 
corpo, que deriva da percepção típica dos sentidos. É lícito pensar nesta plenitude usando categorias de 
verdade do ser ou da realidade, e pode dizer-se que o homem e a mulher eram originalmente dados um ao 
outro precisamente segundo tal verdade, enquanto «estavam nus». Na análise do significado da nudez 
original, não se pode de maneira nenhuma prescindir desta dimensão. Participar na percepção do mundo — 
no seu aspecto «exterior» — é fato direto e quase espontâneo, anterior a qualquer complicação «crítica» do 
conhecimento e da experiência humana e parece estreitamente unido com a experiência do significado do 
corpo humano. Já assim se poderia perceber a inocência original do «conhecimento».
4. Todavia, não se pode descobrir o significado da nudez original considerando só a participação do homem 
na percepção exterior do mundo; não se pode estabelecer esse significado sem descer ao íntimo do 
homem. Gênesis 2, 25 introduz-nos exatamente neste nível e quer que nós procuremos nele a inocência original do conhecer. De fato, é com a dimensão da interioridade humana que se tem de explicar e mediar 
aquela especial plenitude da comunicação interpessoal, que levava o homem e a mulher a «estarem nus 
mas não sentirem vergonha».

O conceito de «comunicação», na nossa linguagem convencional, quase desapareceu devido à sua mais 
profunda e original matriz semântica. Fica ligado sobretudo à esfera dos meios, quer dizer, na maior parte 
ao que serve para o entendimento, para a troca e a aproximação. Por outro lado, é lícito supor que, no seu 
significado original e mais profundo, a «comunicação» estava e está diretamente relacionada com sujeitos 
«comunicantes», precisamente baseados na «comum união» existente entre eles, quer para atingirem quer 
para exprimirem uma realidade que é própria e de interesse, só na esfera dos sujeitos-pessoas. Deste 
modo, o corpo humano adquire significado completamente novo, que não pode colocar-se no plano da 
subsistente percepção «externa» do mundo. De fato, exprime a pessoa na sua consistência ontológica e 
existencial, que é alguma coisa mais que o «indivíduo», e por conseguinte exprime o «eu» humano pessoal, 
que funda, a partir de dentro, a sua percepção «exterior».
5. Toda a narrativa bíblica, e em particular o texto javista, mostra que o corpo, através da própria 
visibilidade, manifesta o homem e, manifestando-o, faz de intermediário, isto é, faz que o homem e a 
mulher, desde o princípio, «comuniquem» entre si segundo aquela communio personarum querida pelo 
Criador exatamente para eles. Só esta dimensão, ao que parece, nos permite compreender de modo 
apropriado a significação da nudez original. A este propósito, qualquer critério «naturalista» está destinado a 
falir, ao passo que o critério «personalista» pode ser de grande auxílio. Gênesis 2, 25 fala certamente dalgo 
extraordinário, que está fora dos limites do pudor conhecido pelo trâmite da experiência humana e ao 
mesmo tempo decide da especial plenitude da comunhão interpessoal, radicada no coração mesmo 
daquela communio, que é assim revelada e desenvolvida. Em tal relação, as palavras «não sentiam 
vergonha» podem significar (in sensu obliquo) somente uma original profundidade em afirmar o que é 
inerente à pessoa, o que é «visivelmente» feminino e masculino, através do que se constitui a «intimidade 
pessoal» da comunhão recíproca, em toda a sua radical simplicidade e pureza. A esta plenitude de 
percepção «exterior», expressa mediante a nudez física, corresponde a «interior» plenitude da visão do 
homem em Deus, isto é, segundo a medida da «imagem de Deus» (Cfr. Gén. 1, 17). Segundo esta medida, 
o homem «está» verdadeiramente nu («estavam nus»: Gén. 2, 25) (1), antes ainda de o reconhecerem (Cfr. 
Gén. 3, 7-10).
Temos ainda de, nas próximas meditações, completar a análise deste texto tão importante.

Nota

1. Deus, segundo as palavras da Sagrada Escritura, penetra na criatura, que diante dele está totalmente 
«nua». «Não há nenhuma criatura invisível na Sua presença, pois todas as coisas estão a nu (panta gymná) 
e a descoberto aos olhos d'Aquele a quem devemos prestar contas» (Heb. 4, 13). Esta característica 
pertence em particular à Sabedoria Divina: «A sabedoria ... atravessa e penetra tudo, graças à sua pureza» 
(Sab. 7, 24).
Aos jovens Casais
Caríssimos jovens Casais!
Também a vós chegue de modo muito especial a minha reconhecida saudação e as minhas Boas-Festas de 
Natal e Feliz Ano, na nova vida que iniciastes! A meditação natalícia sobre o Menino Jesus – nascido na 
pobreza de Belém, mas com a riqueza do amor de Maria e de José vos leve a serdes sempre testemunhas 
convictas da alegria suprema do Natal.
Jesus nasceu por nós, veio também para iluminar, de modo definitivo, o valor do amor, a verdadeira 
natureza do matrimônio, a alegre e séria responsabilidade de dar a vida a novas criaturas, por Ele 
desejadas, amadas, remidas e destinadas para a felicidade eterna.
Os meus votos de felicidade e a minha Bênção vos acompanhem.

TEOLOGIA DO CORPO

Quarta-feira, 12 de Dezembro de 1979
Os significados das primordiais experiências do homem
1. Pode dizer-se que a análise dos primeiros capítulos do Gênesis nos obriga, em certo sentido, a
reconstruir os elementos constitutivos da original experiência do homem. Neste sentido, o texto javista é,
pelo seu carácter, uma fonte especial. Falando das originais experiências humanas, pensamos não tanto no
seu afastamento no tempo, quanto e mais ainda no seu significado fundamental. O importante não é, por
conseguinte, que estas experiências pertençam à pré-história do homem (à sua «pré-história teológica»),
mas que elas se encontrem na raiz de toda a experiência humana. É isto verdade, se bem que a estas
experiências essenciais, na evolução da ordinária existência humana, não se preste muita atenção. Elas, de
fato, encontram-se tão ligadas às coisas ordinárias da vida, que em geral não damos conta de serem
extraordinárias.
Baseados nas análises até agora feitas, pudemos dar-nos conta de, aquilo que chamamos no princípio
«revelação do corpo», nos ajudar dalgum modo a descobrir o extraordinário do que é ordinário. Isto é
possível porque a revelação (a original, que encontrou expressão, primeiro na narrativa javista de Gênesis
2-3, e depois no texto de Gênesis 1) considera precisamente essas experiências primordiais em que
aparece de maneira quase completa a absoluta originalidade daquilo que é o ser humano varão e mulher:
enquanto homem, isto é, também através do seu corpo. A experiência humana do corpo, tal como a
descobrimos nos textos bíblicos citados, encontra-se sem dúvida no limiar de toda a experiência «histórica»
sucessiva. Parece todavia basear-se em tal profundidade ontológica, que o homem não a capta na própria
vida quotidiana, embora, entretanto e em certo modo, a pressuponha como parte do processo de formação
da sua imagem.
2. Sem tal reflexão introdutória, seria impossível precisar o significado da nudez original e realizar a análise
de Gênesis 2, 25, que diz assim: Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam
vergonha. A primeira vista, o aparecer este particular, aparentemente secundário, na narrativa javista da
criação do homem, pode parecer coisa sem valor e mesmo fora de propósito. Poderia julgar-se que a
passagem citada não tem comparação com aquilo de que tratam os versículos precedentes e que, em certo
sentido, não se harmonizam com o contexto. Todavia, este pensamento não resiste a uma análise
aprofundada. Com efeito, Gênesis 2, 25 apresenta um dos elementos-chaves da revelação original, tão
determinante como os outros textos do Gênesis (2, 20 e 2, 23), que já nos permitiram precisar o significado
da solidão original e da original unidade do homem. A estes vem juntar-se, como terceiro elemento, o
significado da nudez original, com clareza posto em evidência no contexto; e ele, no primeiro esboço bíblico
da antropologia, não é coisa acidental. Pelo contrário, forma precisamente a chave para a sua plena e
completa compreensão.

3. É óbvio que exatamente este elemento do antigo texto bíblico oferece à teologia do corpo um contributo 
específico, do qual não se pode de nenhum modo prescindir. É o que nos confirmam as análises seguintes. 
Mas, antes de a elas nos lançarmos, permito-me observar que precisamente o texto de Gênesis 2, 25 exige 
expressamente que se liguem as reflexões sobre a teologia do corpo, com a dimensão da subjetividade 
pessoal do homem; é neste âmbito, de fato, que se desenvolve a consciência do significado do corpo. 
Gênesis 2, 25 fala deste significado de modo muito mais direto do que fazem as outras partes do texto 
javista, que já definimos como primeira registação da consciência humana. A frase, segundo a qual os 
primeiros seres humanos, homem e mulher, «estavam nus», mas «não tinham vergonha», descreve 
indubiamente o estado de consciência de ambos, mais, a sua recíproca experiência do corpo, isto é, a 
experiência por parte do homem da feminilidade que se revela na nudez do corpo e, reciprocamente, a 
análoga experiência da masculinidade por parte da mulher. Afirmando que «não tinham vergonha», o autor 
procura descrever esta recíproca experiência do corpo com a máxima precisão que lhe é possível. Pode 
dizer-se que este tipo de precisão reflete uma experiência basilar do homem em sentido «comum» e pré-
científico, mas corresponde também às exigências da antropologia e em particular da antropologia 
contemporânea, pronta a apelar para as chamadas experiências de fundo, como a experiência do pudor (1).

4. Aludindo aqui ao esmero da narrativa, quanto ele era possível ao autor do texto javista, somos levados a 
considerar os graus de experiência do homem «histórico» carregado com a herança do pecado, graus 
porém que metodologicamente partem em rigor do estado de inocência original. Já verificamos antes que, 
ao referir-se ao «princípio» (por nós aqui sujeito a sucessivas análises contextuais), Cristo estabelece de 
modo indireto a ideia de continuidade e de relação entre aqueles dois estados, como se nos permitisse 
retroceder do limiar da pecaminosidade «histórica» do homem até à sua inocência original. Precisamente 
Gênesis 2, 25 exige de modo particular que se ultrapasse aquele limiar. Fácil é descobrir como este passo, 
juntamente com o significado a ele inerente da nudez original, se insere no conjunto contextua) da narrativa 
javista. De fato, alguns versículos depois, o mesmo autor escreve: Então, abriram-se os olhos aos dois e, 
reconhecendo que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas como se  fossem cinturões (Gén. 3, 7). O advérbio «então» indica novo momento e nova situação, consequentes à 
ruptura da primeira Aliança; é situação que vem depois da falência na prova ligada à árvore do 
conhecimento do bem e do mal, que ao mesmo tempo constituía a primeira prova de «obediência», isto é, 
de atenção à Palavra em toda a sua verdade e de aceitação do Amor, segundo a plenitude das exigências 
da Vontade criadora. Este novo momento ou nova situação comporta também novo conteúdo e nova 
qualidade da experiência do corpo, de maneira que já não se pode dizer: «estavam nus e não tinham 
vergonha». A vergonha é portanto aqui experiência não só original, mas «de confim».

5. É significativa, portanto, a diferença de formulações, que divide Gênesis 2, 25 de Gênesis 3, 7. No 
primeiro caso, «estavam nus, mas não tinham vergonha»; no segundo caso, «reconheceram que estavam 
nus». Quer então dizer que, num primeiro tempo, «não reconheceram que estavam nus»? que não sabiam 
e não viam reciprocamente a nudez dos seus corpos? A significativa transformação que nos é 
testemunhada pelo texto bíblico acerca da experiência da vergonha (de que fala ainda o Gênesis, sobretudo 
em 3, 10-12), dá-se a um nível mais profundo que o puro e simples uso do sentido da vista. A análise 
comparativa entre Gênesis 2, 25 e Gênesis 3 leva necessariamente à conclusão de não tratar-se aqui da 
passagem do «não reconhecer» ao «reconhecer», mas duma radical mudança do significado da nudez 
original, da mulher diante do homem e do homem diante da mulher. Vem a mudança da consciência de 
ambos, como fruto da árvore da consciência do bem e do mal: Quem te disse que estavas nu? Comeste, 
porventura, algum dos frutos da árvore que te proibi comer? (Gén. 3, 11) .Tal mudança diz respeito 
diretamente à experiência do significado do próprio corpo diante do Criador e das criaturas. O que é 
confirmado pelas palavras do homem: Ouvi o ruído dos teus passos no jardim, e, cheio de medo, porque 
estou nu, escondi-me (Gén. 3, 10).
6. À análise desta transformação teremos de voltar ainda, noutras partes das nossas seguintes reflexões. 
Agora, chegados àquele confim que atravessa a esfera do «princípio» para que apelou Cristo, deveremos 
perguntar-nos se é possível reconstruir, dalgum modo, o significado original da nudez, que no Livro do 
Gênesis forma o contexto próximo da doutrina acerca da unidade do ser humano enquanto macho e fêmea. 
Isto parece possível, se tomarmos como ponto referencial a experiência da vergonha do mesmo modo que 
ela, no antigo texto bíblico, foi claramente apresentada: como experiência «liminar». Procuraremos fazer 
uma tentativa dessa reconstrução, ao continuarmos as nossas meditações.
Nota
1. Cfr. por exemplo: M. SCHELER, Über Scham und Schamgefühl Halle 1914; FR. SAWICKI, 
Fenomenologia wstydliwosci (Fenomenologia do pudor), Kraków 1949; e também K. WOJTYLA, Milosc i 
odpowiedzialnosc, Kraków 1962, s. 165-185 (em italiano: Amore e responsabilità, Roma 1978, II ed., págs. 
161-178).
Depois da Audiência
Este novo episódio de autêntica ferocidade, que agitou uma grande cidade (Turim) e a Itália inteira, 
desperta, naqueles que desejam o progresso da Nação na concórdia mútua, sentimentos de profunda 
consternação e vivo pesar. Também eu, em nome de Cristo, exprimo com energia a minha condenação por 
tal ato criminoso e insensato.
Neste dia, em que o povo italiano recorda o triste décimo aniversário doutra carnificina, a da Praça Fontana, 
em Milão, elevo ao Senhor orações pelo pronto restabelecimento dos feridos, a quem envio de coração a 
minha Bênção Apostólica, e faço votos por que os italianos todos reencontrem nas suas tradições cristãs de 
séculos a capacidade para vencer as dificuldades presentes e continuar a oferecer ao mundo eficaz 
testemunho de civil e serena convivência.

Aos jovens Casais
A vós, jovens Casais, participantes nesta Audiência, é-me grato dirigir, como de costume, a minha saudação 
reconhecida pela vossa presença significativa e os meus cordiais bons votos, que se inspiram na próxima 
festividade do Santo Natal.
O Filho de Deus que, encarnando, escolheu nascer no âmbito de uma família humana, vos conceda a graça 
de vos recordar por toda a vida a dignidade e a responsabilidade que derivam do Sacramento do 
matrimônio; vos dê sempre a força para viverdes uma vida exemplar praticando as virtudes cristãs e, por 
fim, preencha a vossa família com os Seus dons celestiais de paz, alegria e prosperidade. Acompanho estes 
votos com a minha Bênção.





TEOLOGIA DO CORPO

Quarta-feira, 21 de Novembro de 1979
Valor do matrimônio uno e indissolúvel à luz dos primeiros capítulos do Gênesis
1. Recordemo-nos ter Cristo apelado para o que era «no princípio», quando foi interrogado sobre a unidade
e a indissolubilidade do matrimônio. Citou as palavras escritas nos primeiros capítulos do Gênesis.
Procuramos por isso, no decurso das presentes reflexões, penetrar no sentido próprio destas palavras e
destes capítulos.
O significado da unidade original do homem, Que Deus criou «varão e mulher», obtém-se (particularmente à
luz do Gênesis 2, 23) conhecendo o homem na completa dotação do seu ser, isto é, em toda a riqueza
daquele mistério da criação, que está na base da antropologia teológica. Este conhecimento, quer dizer, a
busca da identidade humana daquele que no princípio está «só», deve passar sempre através da dualidade,
da «comunhão».
Recordemo-nos da passagem de Gênesis 2, 23: «Ao vê-la, o homem exclamou: 'Esta é realmente o osso
dos meus ossos e a carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem'». À luz
deste texto, compreendemos que o conhecimento do homem passe através da masculinidade e da
feminilidade, que são como duas «encarnações» da mesma solidão metafísica, diante de Deus e do mundo
— como dois modos de «ser corpo» e ao mesmo tempo homem, que se completam reciprocamente —
como duas dimensões complementares da autoconsciência e da autodeterminação e, ao mesmo tempo,
como duas consciências complementares do significado do corpo. Como já mostra Gênesis 2, 23, a
feminilidade encontra-se, em certo sentido, a si mesma, diante da masculinidade, ao passo que a
masculinidade se confirma através da feminilidade. Precisamente a função do sexo, que é, em certo
sentido, «constitutivo da pessoa» (não apenas «atributo da pessoa»), mostra quão profundamente o ser
humano, com toda a sua solidão espiritual, com a unicidade e irrepetibilidade própria da pessoa, é
constituído pelo corpo corno «ele» e como «ela». A presença do elemento feminino, ao lado do masculino e
juntamente com ele, tem o significado dum enriquecimento para o homem em toda a perspectiva da sua
história, incluindo a história da salvação. Todo este ensinamento sobre a unidade foi já expresso
originalmente em Gênesis 2, 23.
2. A unidade, de que fala Gênesis 2, 24 («os dois serão uma só carne»), é sem dúvida aquela que se exprime e realiza no ato conjugal. A formulação bíblica, extremamente concisa e simples, indica o sexo,
feminilidade e masculinidade, como a característica do homem — varão e mulher — que permite aos dois,
quando se tornam «uma só carne», submeter contemporaneamente toda a sua humanidade à bênção da
fecundidade. Todavia, o contexto completo da formulação lapidar não permite determo-nos na superfície da
sexualidade humana, não nos consente tratarmos do corpo e do sexo fora da plena dimensão do homem e
da «comunhão das pessoas», mas obriga-nos desde o «princípio» a descobrir a plenitude e a profundidade
próprias desta unidade, que o homem e a mulher devem constituir à luz da revelação do corpo.
Portanto, antes de tudo, a expressão, que anuncia que «o homem... se unirá à sua mulher» tão intimamente 
que «os dois serão uma só carne», leva-nos sempre a dirigirmo-nos ao que o texto bíblico exprime 
anteriormente a respeito da união na humanidade, que liga a mulher e o homem no mistério mesmo da 
criação. As palavras de Gênesis 2, 23, que acabamos de analisar, explicam este conceito de modo especial. 
O homem e a mulher, unindo-se entre si (no ato conjugal) tão intimamente, que se tornam «uma só carne», 
redescobrem, por assim dizer, cada vez e de modo especial, o mistério da criação, voltam assim àquela 
união na humanidade («osso dos meus ossos e carne da minha carne»), que lhes permite reconhecerem-se 
reciprocamente e, como da primeira vez, chamarem-se pelo nome. Isto significa reviver, em certo sentido, o 
original valor virginal do homem, que deriva do mistério da sua solidão diante de Deus e no meio do mundo.
O fato de se tornarem «uma só carne» é forte laço estabelecido pelo Criador, por meio do qual eles 
descobrem a própria humanidade, quer na sua unidade original quer na dualidade dum misterioso atrativo 
recíproco.O sexo, porém, é alguma coisa mais que a força misteriosa da corporeidade humana, que age 
quase em virtude do instinto. Esta superação sempre em si contém certo assumir a solidão do corpo do 
segundo «eu», como própria.
3. Por isso, anda esta ligada à escolha. A formulação mesma de Gênesis 2, 24 indica não só que os seres 
humanos, criados como homem e mulher, foram criados para a unidade, mas também que precisamente 
esta unidade, através da qual se tornam «uma só carne», tem desde o início carácter de união que deriva 
duma escolha. Lemos de fato: «o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher». Se o ser 
humano pertence «por natureza» ao pai e à mãe em virtude da geração, «une-se» pelo contrário à mulher 
(ou ao marido) por escolha. O texto de Gênesis 2, 24 define esse carácter do laço conjugal em referência ao 
primeiro homem e à primeira mulher, mas simultaneamente fá-lo na perspectiva de todo o futuro do homem
na terra. Por isso, na devida altura, virá Cristo a apelar para este texto, como ainda atual na Sua época. 
Criados à imagem de Deus, ainda quando formam autêntica comunhão de pessoas, o primeiro homem e a 
primeira mulher devem constituir o início e o modelo dessa comunhão para todos os homens e mulheres, 
que em qualquer tempo sucessivo se virão a unir entre si tão intimamente que sejam «uma só carne». O 
corpo que, através da própria masculinidade ou feminilidade, auxiliar ambos («um auxiliar que lhe seja 
semelhante») a encontrarem-se em comunhão de pessoas, torna-se, de modo particular, o elemento 
constitutivo da união deles, quando se tornam marido e mulher. Isto realiza-se, porém, através duma 
escolha recíproca. É a escolha que estabelece o pato conjugal entre as pessoas (1), que só baseadas nele 
se tornam «uma só carne».
4. Isto corresponde à estrutura da solidão do homem, e em concreto à «dupla solidão». A escolha, 
expressando autodeterminação, apoia-se no fundamento daquela estrutura, isto é, no fundamento da sua 
autoconsciência. Só com base na estrutura própria do homem, é ele «corpo» e, através do corpo, é também 
macho ou fêmea. Quando ambos se unem entre si tão intimamente que se tornam «uma só carne», essa 
união conjugal pressupõe madura consciência do corpo. Mais, esta traz consigo uma particular consciência 
do significado daquele corpo na entrega recíproca das pessoas. Também neste sentido, Gênesis 2, 24 é 
texto anunciador. Mostra, de fato, que, em cada união conjugal do homem e da mulher, é de novo 
descoberta a mesma original consciência do significado unitivo do corpo na sua masculinidade e 
feminilidade: com isto indica o texto bíblico, ao mesmo tempo, que em cada uma de tais uniões se renova, 
em certo modo, o mistério da criação em toda a sua profundidade original e força vital. «Tirada do homem» 
como «carne da sua carne», a mulher torna-se em seguida, como «mulher» e através da sua maternidade, 
mãe de todos os vivos (Cfr. Gén. 3, 20), tendo também no homem a sua maternidade a própria origem. A 
procriação está radicada na criação e cada vez, em certo sentido, reproduz o mistério criativo.
5. A este assunto será dedicada uma reflexão especial: «O conhecimento e a procriação». Nela será 
necessário apelar ainda para outros elementos do texto bíblico. A análise feita até agora, do significado da 
unidade original, mostra de que modo «desde o princípio» aquela unidade do homem e da mulher, inerente 
ao mistério da Criação, é também dada como exigência na perspectiva de todos os tempos sucessivos.

Aos jovens Casais

E agora a minha saudação aos jovens Casais, os meus parabéns e bons votos para a vossa nova vida e 
para a vossa atual e futura família. Vós, queridos Casais, quisestes Jesus no Sacramento do matrimônio; 
viestes ter com o Papa, Vigário de Jesus, para receber d'Ele a Bênção do Senhor; se iniciastes tão bem, 
corno verdadeiros cristãos, a vossa convivência, não posso desejar-vos nada melhor do que isto: estai 
sempre com Jesus, na fé e na vida de cada dia; tende-O sempre, Jesus, no meio de vós, também com a 
vossa oração. Deste modo não vos será difícil caminhar juntos no amor, na fidelidade, no acordo mútuo, na 
compreensão e paciência recíprocas e na paz; e os vossos filhos receberão de vós a melhor educação, o 
melhor bom exemplo, e a mais querida e salutar recordação. Por conseguinte, sempre com Jesus, e Jesus 
esteja sempre convosco. E convosco também a minha Bênção.